Elisa Lucinda .
Incompreensão dos mistérios
Saudades de minha mãe.
Sua morte faz um ano e um fato
Essa coisa fez
eu brigar pela primeira vez
com a natureza das coisas:
que desperdício, que descuido
que burrice de Deus!
Não de ela perder a vida
mas a vida de perdê-la.
Olho pra ela e seu retrato.
Nesse dia, Deus deu uma saidinha
e o vice era fraco.
Amanhecimento
De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
Para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada...
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.
Penetração do Poema das Sete Faces
(A Carlos Drumond de Andrade)
Ele entrou em mim sem cerimônias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.
Safena
Sabe o que é um coração
amar ao máximo de seu sangue?
Bater até o auge de seu baticum?
Não, você não sabe de jeito nenhum.
Agora chega.
Reforma no meu peito!
Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
aproximem-se!
Rolos, rolas, tinta, tijolo
comecem a obra!
Por favor, mestre de Horas
Tempo, meu fiel carpinteiro
comece você primeiro passando verniz nos móveis
e vamos tudo de novo do novo começo.
Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora
apertem os cintos
Adeus ao sinto muito do meu jeito
Pitos ventres pernas
aticem as velas
que lá vou de novo na solteirice
exposta ao mar da mulatice
à honra das novas uniões
Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas
Protejam as beiras
lustrem as superfícies
aspirem os tapetes
Vai começar o banquete
de amar de novo
Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
Façam todos suas inscrições.
Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate
O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate.
O poema do semelhante
O Deus da parecença
que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza
em sentimento
que nos pluraliza
que nos banaliza
por baixo e por dentro,
foi este Deus que deu
destino aos meus versos,
Foi Ele quem arrancou deles
a roupa de indivíduo
e deu-lhes outra de indivíduo
ainda maior, embora mais justa.
Me assusta e acalma
ser portadora de várias almas
de um só som comum eco
ser reverberante
espelho, semelhante
ser a boca
ser a dona da palavra sem dono
de tanto dono que tem.
Esse Deus sabe que alguém é apenas
o singular da palavra multidão
Eh mundão
todo mundo beija
todo mundo almeja
todo mundo deseja
todo mundo chora
alguns por dentro
alguns por fora
alguém sempre chega
alguém sempre demora.
O Deus que cuida do
não-desperdício dos poetas
deu-me essa festa
de similitude
bateu-me no peito do meu amigo
encostou-me a ele
em atitude de verso beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo:
a solidão da bravura
a solidão do medo
a solidão da usura
a solidão da coragem
a solidão da bobagem
a solidão da virtude
a solidão da viagem
a solidão do erro
a solidão do sexo
a solidão do zelo
a solidão do nexo.
O Deus soprador de carmas
deu de eu ser parecida
Aparecida
santa
puta
criança
deu de me fazer
diferente
pra que eu provasse
da alegria
de ser igual a toda gente
Esse Deus deu coletivo
ao meu particular
sem eu nem reclamar
Foi Ele, o Deus da par-essência
O Deus da essência par.
Não fosse a inteligência
da semelhança
seria só o meu amor
seria só a minha dor
bobinha e sem bonança
seria sozinha minha esperança.
que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza
em sentimento
que nos pluraliza
que nos banaliza
por baixo e por dentro,
foi este Deus que deu
destino aos meus versos,
Foi Ele quem arrancou deles
a roupa de indivíduo
e deu-lhes outra de indivíduo
ainda maior, embora mais justa.
Me assusta e acalma
ser portadora de várias almas
de um só som comum eco
ser reverberante
espelho, semelhante
ser a boca
ser a dona da palavra sem dono
de tanto dono que tem.
Esse Deus sabe que alguém é apenas
o singular da palavra multidão
Eh mundão
todo mundo beija
todo mundo almeja
todo mundo deseja
todo mundo chora
alguns por dentro
alguns por fora
alguém sempre chega
alguém sempre demora.
O Deus que cuida do
não-desperdício dos poetas
deu-me essa festa
de similitude
bateu-me no peito do meu amigo
encostou-me a ele
em atitude de verso beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo:
a solidão da bravura
a solidão do medo
a solidão da usura
a solidão da coragem
a solidão da bobagem
a solidão da virtude
a solidão da viagem
a solidão do erro
a solidão do sexo
a solidão do zelo
a solidão do nexo.
O Deus soprador de carmas
deu de eu ser parecida
Aparecida
santa
puta
criança
deu de me fazer
diferente
pra que eu provasse
da alegria
de ser igual a toda gente
Esse Deus deu coletivo
ao meu particular
sem eu nem reclamar
Foi Ele, o Deus da par-essência
O Deus da essência par.
Não fosse a inteligência
da semelhança
seria só o meu amor
seria só a minha dor
bobinha e sem bonança
seria sozinha minha esperança.
Fala, silêncio!
(Jornal Brasil, 19.09.2018)
A síntese desse tempo é a voz. A voz de quem? De quem nunca foi escutado porque traz notícias do inferno. Não se iludam. Estamos em pleno processo eleitoral num país que nunca houve antes. Gente que nunca importou, que nunca decidiu o jogo, que nunca foi ouvida sobre o seu destino, começa a falar e vai votar. A diversidade da condição humana está mostrando sua cara dizendo em alto e bom som que “quem bate esquece, quem apanha lembra”. Se das exclusões fizermos um recorte só do feminino silenciado, ficaremos em estado de choque ao perceber como o machismo influenciou na ciência, fazendo experimentos em corpos masculinos para medicar toda uma população feminina também. Mulher tem outra pressão arterial, outra configuração, e é por isso que precisa ser consultada sob suas demandas.
Galopantes nas redes, movimentos e manifestações contra programas de governo que só pioram nossos riscos neste país provam que a mulherada não está brincando não! Estamos denunciando que o domínio machista sobre os nossos corpos é que legitima a matança, a carnificina, o festival de estupro que se normatizou no país. Qualquer plataforma que não avance na solução desta crueldade não terá o nosso voto. Não dá mais para fazer política sem mulher, sem preto, sem homossexual, sem trans, sem o toda a gente normal que o mundo tem.
“Para liberar o porte de arma será necessário que o brasileiro comprove que aguenta levar chifre”, li isso hoje e é o cerne da questão. O relato de vários assassinos do que já foi chamado crime passional e hoje é feminicídio, alegam que, se tivessem tido um minuto de reflexão, não teriam atirado. O impulso é mais um perigo da liberação do porte de arma. É melhor que ela não esteja à mão. Legítima defesa da honra era um dispositivo jurídico que até então justificava o crime do corno. Muitas morreram e morrem porque tiveram outro ou porque não querem mais aquele. Isso não é machismo? Se valesse para todos, haveria um extermínio de todo homem que tivesse mais de uma mulher então? É assim que se reflete sobre um tema: cruzando dados, mudando as posições pela empatia, se colocando no lugar daquela que trabalha o dia inteiro dando conta da criançada, da casa, da comida, da roupa, da puta que pariu que mora nas infinitas tarefas do lar e, ainda tem que transar animada de noite com o marido bêbado que precisa descarregar. É violenta a cena escrita? Hum.
Agora nossas palavras entraram no jogo. Ficamos em silêncio por muitos anos até existir nossa cidadania para romper com o sofrer calada: assédio, abuso psicológico, feminicídio são palavras atuais para nos proteger de velhos crimes. Não está fácil para o homem transitar num modelo onde ele não é o rei. Perdeu o lugar de único provedor restringindo o seu domínio, está custando a entender que não manda na saia, no cabelo de um corpo que não lhe pertence. Está perdido. É o momento de aprender a ser homem de outro modo, uma refundação de si, incluindo seu papel de pai, de amante, de companheiro com afeto e sem dominação. Não dá mais para “ajudar” na cozinha. Ajudar é favor. É essa bagunça que forma um grande chifre, acirra as paranoias e, o pior, sou obrigada a dizer não é nada disso, é só uma coisa que botaram na sua cabeça. Ser homem pode ter a ver com ser sensível, romântico, emotivo. O referencial masculino violento, o bom de briga, o esquentado, mata o próprio homem também e põe em estado de insegurança a humanidade. Obviamente nunca haverá hora boa para liberar porte de arma, mas certamente não é agora a hora de armar um homem que está com problemas de identidade. É um perigo. Vê-se no trânsito a intolerância e o ódio grassando, por causa de uma simples ultrapassagem. Imagina esse cidadão armado? Socorro! Não se governa esse país sem pensar sociologicamente no panorama de seu funcionamento, nas decisões que podem matar mais quem já morre mais.
Somos 52% do eleitorado, trabalhamos fora, criamos nossos filhos com ou sem marido, muitas de nós que não podíamos entrar nas universidades, agora já saímos dela e por nós fascistas não passarão. Não se elegerá quem não se importa com a nossa dor. Somos a base de uma sociedade e as que estão mais na base são as negras. Quando em silêncio nunca deixamos de trabalhar. Se a gente fizer greve, o mundo pode parar. Quando a gente se mexe, tudo mexe, morou? Essa também foi Angela Davis que me ensinou.
(Jornal Brasil, 19.09.2018)
A síntese desse tempo é a voz. A voz de quem? De quem nunca foi escutado porque traz notícias do inferno. Não se iludam. Estamos em pleno processo eleitoral num país que nunca houve antes. Gente que nunca importou, que nunca decidiu o jogo, que nunca foi ouvida sobre o seu destino, começa a falar e vai votar. A diversidade da condição humana está mostrando sua cara dizendo em alto e bom som que “quem bate esquece, quem apanha lembra”. Se das exclusões fizermos um recorte só do feminino silenciado, ficaremos em estado de choque ao perceber como o machismo influenciou na ciência, fazendo experimentos em corpos masculinos para medicar toda uma população feminina também. Mulher tem outra pressão arterial, outra configuração, e é por isso que precisa ser consultada sob suas demandas.
Galopantes nas redes, movimentos e manifestações contra programas de governo que só pioram nossos riscos neste país provam que a mulherada não está brincando não! Estamos denunciando que o domínio machista sobre os nossos corpos é que legitima a matança, a carnificina, o festival de estupro que se normatizou no país. Qualquer plataforma que não avance na solução desta crueldade não terá o nosso voto. Não dá mais para fazer política sem mulher, sem preto, sem homossexual, sem trans, sem o toda a gente normal que o mundo tem.
“Para liberar o porte de arma será necessário que o brasileiro comprove que aguenta levar chifre”, li isso hoje e é o cerne da questão. O relato de vários assassinos do que já foi chamado crime passional e hoje é feminicídio, alegam que, se tivessem tido um minuto de reflexão, não teriam atirado. O impulso é mais um perigo da liberação do porte de arma. É melhor que ela não esteja à mão. Legítima defesa da honra era um dispositivo jurídico que até então justificava o crime do corno. Muitas morreram e morrem porque tiveram outro ou porque não querem mais aquele. Isso não é machismo? Se valesse para todos, haveria um extermínio de todo homem que tivesse mais de uma mulher então? É assim que se reflete sobre um tema: cruzando dados, mudando as posições pela empatia, se colocando no lugar daquela que trabalha o dia inteiro dando conta da criançada, da casa, da comida, da roupa, da puta que pariu que mora nas infinitas tarefas do lar e, ainda tem que transar animada de noite com o marido bêbado que precisa descarregar. É violenta a cena escrita? Hum.
Agora nossas palavras entraram no jogo. Ficamos em silêncio por muitos anos até existir nossa cidadania para romper com o sofrer calada: assédio, abuso psicológico, feminicídio são palavras atuais para nos proteger de velhos crimes. Não está fácil para o homem transitar num modelo onde ele não é o rei. Perdeu o lugar de único provedor restringindo o seu domínio, está custando a entender que não manda na saia, no cabelo de um corpo que não lhe pertence. Está perdido. É o momento de aprender a ser homem de outro modo, uma refundação de si, incluindo seu papel de pai, de amante, de companheiro com afeto e sem dominação. Não dá mais para “ajudar” na cozinha. Ajudar é favor. É essa bagunça que forma um grande chifre, acirra as paranoias e, o pior, sou obrigada a dizer não é nada disso, é só uma coisa que botaram na sua cabeça. Ser homem pode ter a ver com ser sensível, romântico, emotivo. O referencial masculino violento, o bom de briga, o esquentado, mata o próprio homem também e põe em estado de insegurança a humanidade. Obviamente nunca haverá hora boa para liberar porte de arma, mas certamente não é agora a hora de armar um homem que está com problemas de identidade. É um perigo. Vê-se no trânsito a intolerância e o ódio grassando, por causa de uma simples ultrapassagem. Imagina esse cidadão armado? Socorro! Não se governa esse país sem pensar sociologicamente no panorama de seu funcionamento, nas decisões que podem matar mais quem já morre mais.
Somos 52% do eleitorado, trabalhamos fora, criamos nossos filhos com ou sem marido, muitas de nós que não podíamos entrar nas universidades, agora já saímos dela e por nós fascistas não passarão. Não se elegerá quem não se importa com a nossa dor. Somos a base de uma sociedade e as que estão mais na base são as negras. Quando em silêncio nunca deixamos de trabalhar. Se a gente fizer greve, o mundo pode parar. Quando a gente se mexe, tudo mexe, morou? Essa também foi Angela Davis que me ensinou.
